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Cimentação de zircônia: qual cimento e o passo a passo

Qual cimento usar na coroa de zircônia em cada situação, como jatear e limpar a superfície interna após a prova, o passo a passo e os erros que soltam a coroa.

Por Equipe técnica Smile Digital LabAtualizado em 9 min de leitura

Resposta curta

A cimentação de zircônia depende da retenção do preparo. Com preparo retentivo, a coroa aceita cimento autoadesivo, ionômero modificado por resina ou fosfato de zinco; com preparo curto ou expulsivo, use cimento resinoso adesivo com primer de MDP. Nos dois casos, a superfície interna é jateada com óxido de alumínio e limpa depois da prova, sem ácido fosfórico.

Passo a passo

  1. 01

    Limpe o preparo e escolha o cimento pela retenção

    Remova o provisório e todo o cimento provisório com pedra-pomes. Com preparo retentivo, cimento autoadesivo ou convencional resolve; com preparo curto ou expulsivo, a cimentação é adesiva, com primer de MDP.

  2. 02

    Prove a coroa e desgaste o mínimo

    Confira adaptação, contatos e oclusão. Se precisar desgastar, use pressão leve e, com diamantada, refrigeração com água, como pede a Ivoclar para a zircônia sinterizada. Evite silicone para conferir adaptação se for usar pasta de limpeza depois.

  3. 03

    Jateie ou limpe a superfície interna depois da prova

    Jateie com óxido de alumínio no grão e na pressão do fabricante do disco até a superfície ficar fosca. Se a coroa chegou jateada, tire a saliva com pasta de limpeza para zircônia. Ácido fosfórico não serve para essa limpeza.

  4. 04

    Aplique o primer com MDP, se a cimentação for adesiva

    Passe o primer de zircônia, com monômero fosfatado como o MDP, deixe agir o tempo da instrução (60 segundos no Monobond Plus) e disperse com jato de ar. Na tabela da Ivoclar, autoadesivo e convencional dispensam o primer.

  5. 05

    Prepare o dente conforme o cimento

    Para cimento autoadesivo, lave e seque de leve, com o dente ainda úmido: a 3M liga o ressecamento à sensibilidade pós-operatória. Para cimento adesivo, siga o sistema adesivo do fabricante, com o campo isolado.

  6. 06

    Assente, remova o excesso e polimerize

    Assente com pressão digital, pré-polimerize por pouco tempo (1 a 2 segundos por face no RelyX U200), retire o excesso segurando a coroa e faça a polimerização final (20 segundos por face, ou 6 minutos de presa química).

  7. 07

    Confira margens, contatos e sulco

    Passe fio dental nos contatos, procure cimento na margem e, na coroa sobre implante, no sulco. Confira a oclusão com a coroa já cimentada.

Qual cimento usar na coroa de zircônia?

O cimento da coroa de zircônia se escolhe pela retenção do preparo. Em preparo retentivo, a coroa aceita cimento autoadesivo, convencional ou adesivo; em preparo curto ou expulsivo, a instrução do IPS e.max ZirCAD (Ivoclar, 2025) indica só a cimentação adesiva, com primer. Na mesma tabela, autoadesivo e convencional dispensam o primer, e o jateamento e a limpeza depois da prova valem para os três.

Preparo retentivo tem convergência oclusal total de 10 a 20° e altura de pelo menos 4 mm em molar e 3 mm nos demais dentes. São os valores da revisão clássica de Goodacre e colegas (The Journal of Prosthetic Dentistry, 2001); abaixo deles, a coroa depende da adesão.

situaçãocimentoo que mudafonte
Coroa unitária com preparo retentivoautoadesivo, ionômero modificado por resina ou adesivojateamento em todos; primer só no adesivoIvoclar, IPS e.max ZirCAD; 3M, guia de pré-tratamento
Preparo curto ou expulsivoresinoso adesivojateamento, primer com MDP e campo isoladoIvoclar, IPS e.max ZirCAD; Quigley et al., 2021
Coroa fina ou pouco espaço oclusalresinoso, adesivo ou autoadesivoem laboratório, a coroa cimentada com resina fraturou com carga maior que com fosfato de zincoIndergård et al., 2021
Fosfato de zincosó com preparo retentivoretém por atrito, sem aderir à zircôniaIndergård et al., 2021
Coroa cimentada sobre pilar de implanteum cimento cujo excesso você consiga remover inteiromargem no nível da mucosa; o excesso é indicador de risco de doença peri-implantarStaubli et al., 2017

A escolha entre adesivo e convencional pesa menos na sobrevida do que parece. A revisão sistemática da American Academy of Fixed Prosthodontics (Maroulakos e colegas, The Journal of Prosthetic Dentistry, 2019) reuniu 17 estudos clínicos e 2.436 coroas de zircônia e de dissilicato. A sobrevida das coroas de zircônia foi de 83,3% a 100% com cimentação adesiva e de 82,0% a 100% com convencional, e os autores classificam a evidência como de baixa qualidade.

Como tratar a superfície interna da zircônia?

A superfície interna da zircônia é tratada com jateamento de óxido de alumínio e, na cimentação adesiva, com primer de monômero fosfatado, como o MDP. A zircônia não tem a fase vítrea que o ácido fluorídrico dissolve: a instrução do Monobond Plus (Ivoclar, 2023) manda condicionar com ácido as vitrocerâmicas e jatear a zircônia.

Cada fabricante dá o grão e a pressão do jateamento:

  • Ivoclar, para o IPS e.max ZirCAD: óxido de alumínio de 25 a 70 µm a 1 bar, ou de 70 a 110 µm a 1,5 bar.
  • Kuraray, na instrução do CLEARFIL CERAMIC PRIMER PLUS: 30 a 50 µm, entre 1 e 4 bar, depois da prova.
  • 3M, no guia do RelyX U200 para coroa de zircônia: 30 ou 50 µm a 2 bar, até a superfície ficar fosca.

A revisão sistemática de Quigley e colegas (The Journal of Prosthetic Dentistry, 2021), sobre próteses adesivas de zircônia, recomenda 50 µm entre 1 e 2,5 bar, adesivo ou cimento com monômero fosfatado e isolamento absoluto. O primer universal da Kuraray, indicado para zircônia, metal e vitrocerâmica, leva os dois monômeros: MDP e silano.

Na zircônia mais translúcida, o jateamento cobra um preço. Indergård e colegas (Biomaterial Investigations in Dentistry, 2021) jatearam coroas com 50 µm a 2 bar: as de zircônia 5Y fraturaram com carga menor que as não jateadas, e as 3Y não perderam resistência. Os autores pedem mais pesquisa antes de um protocolo para a 5Y; em coroa de disco multicamada ou 5Y, siga o grão e a pressão do fabricante do disco.

O que contamina a zircônia na prova, e como limpar?

Saliva e sangue contaminam a zircônia na prova, e lavar com água não devolve a adesão. No estudo de laboratório de Tian e colegas (Journal of Dentistry, 2022), a água tirou quase toda a contaminação, mas a resistência de união do cimento resinoso ficou abaixo da zircônia limpa. Ácido fosfórico também falhou.

limpeza depois da provaresultadofonte
Rejatear com óxido de alumínioa maior resistência de união entre os métodos comparadosSilva et al., 2022
Pasta de limpeza para zircônia (Ivoclean, 20 segundos)melhor que água, abaixo do rejateamento na meta-análise; recuperou a adesão no estudo de TianSilva et al., 2022; Tian et al., 2022
Hipoclorito de sódio a cerca de 5%indicado pela 3M quando a coroa foi jateada antes da prova; menos confiável no estudo de Tian3M, guia RelyX U200; Tian et al., 2022
Ácido fosfóricoigual a lavar com água; Ivoclar e 3M desaconselhamSilva et al., 2022; Ivoclar, Monobond Plus
Álcooligual a lavar com águaSilva et al., 2022

A pasta de silicone para conferir adaptação é outro contaminante. A instrução do Ivoclean contraindica a pasta de limpeza em peça que teve contato com material à base de silicone; nesse caso, sobra o rejateamento depois da prova, que é o momento em que a Kuraray manda jatear.

Depois de limpar, o primer é aplicado de novo. A instrução do Monobond Plus manda repetir todo o tratamento da peça se ela se contaminar com saliva, sangue ou água.

Como cimentar zircônia com RelyX U200?

O RelyX U200 é um cimento resinoso autoadesivo da 3M, e o guia da 3M para coroa de zircônia com ele não tem primer. A coroa é jateada com óxido de alumínio de 30 ou 50 µm a 2 bar, limpa com álcool e seca com ar sem óleo. Se a coroa foi jateada no laboratório antes da prova, a 3M manda tirar a saliva com hipoclorito de sódio a cerca de 5% e lavar, sem ácido fosfórico.

No dente, o guia pede limpeza mecânica com pedra-pomes e a remoção de todo resíduo de cimento provisório, dessensibilizante ou desinfetante, sem peróxido de hidrogênio, EDTA ou bicarbonato. O preparo é lavado e seco de leve, ainda úmido: segundo a 3M, ressecar o dente pode causar sensibilidade pós-operatória.

Com a coroa assentada sob pressão digital, a 3M indica 1 a 2 segundos de luz por face e a remoção do excesso com a coroa segura no lugar. A polimerização final é de 20 segundos por face, ou 6 minutos de presa química a partir da mistura. Passar do tempo da pré-polimerização endurece o excesso e dificulta a limpeza.

O U200 é autoadesivo, e na tabela da Ivoclar para a zircônia a cimentação autoadesiva pede preparo retentivo. Em preparo curto, a indicação passa a ser a adesiva.

Dá para cimentar zircônia com fosfato de zinco?

Dá, em preparo retentivo: o fosfato de zinco segura a coroa de zircônia por atrito, sem aderir a ela. O limite está na resistência da peça. No estudo de Indergård e colegas (2021), coroas de zircônia 3Y cimentadas com fosfato de zinco fraturaram com carga menor que as cimentadas com cimento resinoso autoadesivo, com ou sem jateamento.

O resultado é de laboratório, com coroas sem envelhecimento sobre réplicas de resina, e os autores avisam que os valores tendem a ficar acima dos da boca. Quando a resistência da coroa preocupa, como na coroa fina ou com pouco espaço oclusal, é o cimento resinoso que o estudo apoia.

E a coroa de zircônia sobre pino ou núcleo metálico?

A coroa de zircônia sobre núcleo metálico fundido se cimenta como sobre dente: a retenção vem da forma do núcleo, e a superfície interna da coroa recebe o mesmo jateamento. Com núcleo retentivo, autoadesivo ou convencional funcionam.

Na cimentação adesiva, o metal do núcleo também entra na conta. O primer com MDP da Kuraray tem indicação para metal e zircônia, e a Ivoclar desaconselha limpar superfície metálica com ácido fosfórico, pelo mesmo motivo da zircônia.

O que muda no pedido é a cor. A Ivoclar orienta escolher o bloco pela cor do preparo, na área mais escurecida; com núcleo metálico, avise o laboratório e mande essa cor. Não encontramos estudo clínico que compare cimentos para coroa de zircônia sobre núcleo metálico, e a escolha segue a retenção do núcleo.

E a coroa de zircônia cimentada sobre implante?

Na coroa de zircônia cimentada sobre pilar de implante, o que mais pesa na escolha do cimento é conseguir remover todo o excesso. A revisão sistemática de Staubli e colegas (Clinical Oral Implants Research, 2017) reuniu 1.010 restaurações cimentadas. A doença peri-implantar apareceu em 1,9% a 75% dos implantes, e de 33% a 100% desses casos estavam associados a excesso de cimento.

Os autores recomendam margem da coroa no nível da mucosa, com acesso para limpar, tecido mole maduro antes de cimentar e revisão precoce; o excesso foi mais frequente com cicatrização de menos de 4 semanas. Tipo de pilar e de cimento não tiveram influência significativa.

Para reduzir o excesso, a revisão de Reda e colegas (Methods and Protocols, 2022) aponta a cimentação extraoral, com o excesso tirado numa réplica do pilar antes de a coroa ir à boca. Os mesmos autores preferem cimento provisório de óxido de zinco sem eugenol, mas só três estudos clínicos entraram na análise.

Os números das duas retenções estão no artigo coroa parafusada ou cimentada. A coroa colada na base de titânio, fora da boca, é outro procedimento, descrito em o que é Ti-base.

Quais erros fazem a coroa de zircônia soltar?

Os erros que mais comprometem a cimentação de zircônia acontecem depois da prova e na escolha do cimento para o preparo.

erroo que acontececomo evitarfonte
Limpar a coroa com ácido fosfórico ou álcool depois da provaa adesão fica no nível da peça só lavada com águarejatear ou usar pasta de limpeza para zircôniaSilva et al., 2022
Usar autoadesivo ou convencional em preparo curto ou expulsivoo cimento fica sem a retenção que a indicação pressupõecimentação adesiva, com primer de MDPIvoclar, IPS e.max ZirCAD
Conferir adaptação com silicone e limpar com pasta de limpezaa pasta é contraindicada depois de contato com siliconerejatear depois da provaIvoclar, Ivoclean
Ressecar o preparo antes do autoadesivosensibilidade pós-operatórialavar e secar de leve, com o dente úmido3M, guia RelyX U200
Prolongar a pré-polimerizaçãoo excesso endurece e a limpeza fica difícil1 a 2 segundos por face3M, guia RelyX U200
Jatear zircônia 5Y com grão ou pressão acima do indicadocarga de fratura menor, em laboratóriogrão e pressão do fabricante do discoIndergård et al., 2021
Margem profunda na coroa cimentada sobre implantecimento esquecido no sulcomargem no nível da mucosa e revisão precoceStaubli et al., 2017

O que vem do laboratório e o que informar no pedido?

A coroa de zircônia sai do laboratório sinterizada, com maquiagem e glaze; a prova, a limpeza da superfície interna, o primer e a cimentação são da clínica. Pergunte ao laboratório se a superfície interna sai jateada: mesmo jateada, ela se contamina na prova e precisa da limpeza descrita acima.

No pedido, informe:

  • O cimento previsto (adesivo, autoadesivo ou convencional), sobretudo se o preparo é curto ou expulsivo.
  • Se o dente tem núcleo metálico ou está escurecido, com a cor do preparo.
  • Na coroa sobre implante, se ela será cimentada sobre pilar e a altura da margem em relação à mucosa.
  • Se o caso pede zircônia mais translúcida (4Y, 5Y ou multicamada), em que o jateamento muda.

Se o espaço não comportar a espessura mínima do material, falamos com você antes de fresar. Conferimos cada caso na chegada e em oito pontos antes de sair. A escolha do material está em zircônia monolítica, multicamada ou Emax, e a coroa, nas páginas da coroa de zircônia e da coroa de zircônia sobre implante. No Emax, o protocolo é outro: veja a cimentação de Emax.

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Perguntas frequentes

Precisa de primer com MDP quando o cimento é autoadesivo?

Depende do fabricante do cimento. No guia da 3M para coroa de zircônia com RelyX U200, a superfície interna é só jateada e limpa com álcool, sem primer. Na tabela da Ivoclar para o IPS e.max ZirCAD, o primer entra só na cimentação adesiva. Vale a instrução do cimento que você usa.

Posso limpar a zircônia com ácido fosfórico depois da prova?

Não. Numa meta-análise de 2022 no Journal of Adhesive Dentistry, limpar zircônia contaminada por saliva com ácido fosfórico deu a mesma adesão que lavar com água. Rejatear com óxido de alumínio foi o método mais eficaz, seguido da pasta de limpeza. Ivoclar e 3M também desaconselham o ácido fosfórico na zircônia.

O ácido fluorídrico condiciona a zircônia?

Não da forma que condiciona o Emax. A zircônia é policristalina, sem a fase vítrea que o ácido dissolve; por isso a instrução do Monobond Plus manda condicionar com ácido só as vitrocerâmicas e jatear a zircônia. O protocolo do dissilicato de lítio está no guia de cimentação de Emax.

Fontes

  1. IPS e.max ZirCAD (chairside) — Instructions for Use (Rev. 1, 2025) · Ivoclar Vivadent
  2. Monobond Plus — Instructions for Use (Rev. 0, 2023) · Ivoclar Vivadent
  3. Ivoclean — Instructions for Use (Rev. 0, 2025) · Ivoclar Vivadent
  4. CLEARFIL CERAMIC PRIMER PLUS — Instructions for Use · Kuraray Noritake Dental
  5. Zirconia Crown Cementation Made Easy with 3M RelyX U200 Self-Adhesive Resin Cement · 3M Oral Care (2018)
  6. 3M RelyX Cements — Material Pretreatment Guide · 3M Oral Care (2020)
  7. Effect of cement type on the clinical performance and complications of zirconia and lithium disilicate tooth-supported crowns: a systematic review · The Journal of Prosthetic Dentistry (Maroulakos et al., 2019)
  8. Clinical efficacy of methods for bonding to zirconia: a systematic review · The Journal of Prosthetic Dentistry (Quigley et al., 2021)
  9. Which zirconia surface-cleaning strategy improves adhesion of resin composite cement after saliva contamination? A systematic review and meta-analysis · The Journal of Adhesive Dentistry (Silva et al., 2022)
  10. Effectiveness of different cleaning measures on the bonding of resin cement to saliva-contaminated or blood-contaminated zirconia · Journal of Dentistry (Tian et al., 2022)
  11. Effect of cementation techniques on fracture load of monolithic zirconia crowns · Biomaterial Investigations in Dentistry (Indergård et al., 2021)
  12. Tooth preparations for complete crowns: an art form based on scientific principles · The Journal of Prosthetic Dentistry (Goodacre et al., 2001)
  13. Excess cement and the risk of peri-implant disease — a systematic review · Clinical Oral Implants Research (Staubli et al., 2017)
  14. A systematic review of cementation techniques to minimize cement excess in cement-retained implant restorations · Methods and Protocols (Reda et al., 2022)

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